
Uma senhora de oitenta anos, na província de Shandong, na China, atendia todo dia uma chamada de vídeo do filho. Ela perguntava se ele estava comendo direito, quando ele voltava pra casa. O filho respondia com o rosto dele, a voz dele e o dialeto dele. Só que ele tinha morrido num acidente de carro mais de um ano antes, e ela era a única pessoa da família que não sabia. A senhora tem problema no coração. A família decidiu que a notícia podia matá-la e escolheu não contar. O neto procurou um técnico, entregou centenas de fotos, vídeos e áudios do pai, e o cara reconstruiu o homem inteiro com clonagem de voz e troca de rosto: o jeito de falar, as pausas, até o costume de se inclinar pra frente no meio da frase. Nas chamadas quem gravava era o técnico, e o rosto do morto entrava por cima, ao vivo. O próprio técnico disse que não esperava ouvir a palavra mãe, e que o trabalho dele é enganar a emoção das pessoas pra confortar quem ficou vivo. Ela morreu depois, sem nunca ter descoberto. E isso não é um caso solto. Na China a ressurreição digital virou indústria: o mercado de humanos digitais já valia 12 bilhões de yuans em 2022, uma única empresa passou de 20 mil pedidos, e hoje 30 segundos de vídeo bastam pra montar o clone. Aqui perto também tem fila: uma pesquisa do CEAM da ESPM ouviu 267 brasileiros que perderam alguém nos últimos dois anos, e um em cada quatro se imagina conversando com esse parente por inteligência artificial. Do outro lado, pesquisadores da Universidade de Cambridge alertaram em 2024 que esses avatares podem assombrar digitalmente quem ficou e empurrar a pessoa pro luto prolongado, porque ela adia a aceitação da perda em vez de atravessar. Em novembro de 2025 um aplicativo americano que promete a mesma coisa foi enterrado de críticas com 40 milhões de visualizações, e em abril deste ano a China publicou uma minuta de regras proibindo criar humano digital com o rosto de alguém sem consentimento. Agora me conta aqui embaixo o que você achou disso. Se fosse a sua família, você contaria a verdade, ou deixaria a ligação continuar?
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