
Vou explicar pra vocês como a preferência fiscal pela agricultura ajudou a travar a reindustrialização do Brasil. Só em 2026, os gastos tributários federais devem somar mais de seiscentos bilhões. E na função orçamentária da agricultura fica 14,95% desse total, ou a terceira maior fatia. Descendo ao nível da empresa, o painel da Receita registrou, em 2024, quase trinta bilhões de isenção na categoria carnes. E quase o mesmo montante em isenção para adubos e fertilizantes. Adendo: só a JBS teve quase quatro bilhões de isenção. Em janeiro do ano passado, a Lei Complementar 214 aprofundou ainda mais esse problema, ao incluir carnes, peixes e queijos na cesta básica nacional com alíquota zero. Pelo cálculo da Receita, a medida eleva a alíquota do novo imposto sobre o valor agregado de 26,5% para 27,03%. Meio ponto percentual. Sobre o um vírgula sessenta e três trilhão que a gente pagou em tributo sobre consumo em 2024, esse meio ponto vira cerca de trinta e dois bilhões. Agora, a reforma opera sob neutralidade arrecadatória. Cada exceção dessas não desapareceu da conta, só mudou o pagador. E o pagador somos nós, porque renúncia dada a um setor virou alíquota maior sobre os demais. Escolheram a carne, mas encareceram máquina, componente eletrônico, insumo químico e serviço técnico. Consequência de tudo isso aparece quando a gente olha pro instrumento desenvolvido por Hausmann e Hidalgo, o famoso Atlas da Complexidade Econômica. Para eles, riqueza não decorreria de acumular capital nem anos de escolaridade, mas sim de conhecimento produtivo distribuído entre muitas pessoas. Conhecimento tácito e coletivo, incapaz de ser importado ou lido em manual. Pra medir esse estoque invisível, a gente precisa entender uma coisa: cruzamos a diversidade da pauta exportadora com a ubiquidade de cada produto, ou o quanto cada produto pode ser produzido em outros lugares. Ou seja, máquinas, químicos e eletrônicos formam o centro denso, com centenas de conexões, ao passo que commodities agrícolas e minerais ocupariam uma periferia esparsa. Vamos abrir. E a trajetória brasileira segue exatamente essa descrição. O país já esteve no meio do mapa, exportando avião, autopeça, máquina pesada. Foi saindo de lá aos poucos. Na década de 2000, a China passou a comprar toda commodity que a gente conseguisse produzir e, ao mesmo tempo, a vender manufatura mais barata que a nossa lá fora. A parte densa da nossa pauta encolheu, a parte esparsa engordou. Nos levantamentos do índice de complexidade, o Brasil desceu cerca de vinte posições em pouco mais de uma década, e a nossa fatia na indústria mundial hoje é menos da metade do que era nos anos 1980. Não é que a gente tenha desaprendido a fazer coisa complexa. É que a gente parou de dar o salto seguinte. E olha o detalhe: quando o Atlas foi publicado, em 2011, o Brasil aparecia entre os dez países mais bem posicionados do mundo para dar exatamente esses saltos. A vizinhança estava ali. A gente é que não pulou. Somando tudo isso, a gente chega numa política industrial invertida, onde o Estado brasileiro gasta dezenas de bilhões por ano barateando exatamente os produtos da periferia do mapa, como carnes, grãos, fertilizantes. Mas eles não puxam nada atrás de si, ou seja, não geram riqueza para outros setores da mesma economia, cobrando essa conta do centro que seria denso, ou seja, de onde sairiam os próximos saltos de complexidade. Seja tecnologia, maquinário e peças. Essa isenção fiscal dada ao setor de agricultura não vai criar novas conexões de complexidade, porque a capacidade produtiva se acumula fazendo e o conhecimento também. Nada disso se aprende com desconto de imposto à agricultura. Então o que a gente financia com esse dinheiro todo não é mais conhecimento. Lembrando que nós estamos falando de um setor onde 77% dos estabelecimentos são de agricultura familiar e ocupam só 23% da terra, enquanto os 23% restantes ficam com 77% da área e o $ da renúncia vai justamente para os grandes produtores
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